Fragmentos de uma autobiografia

02/04/2013 - Leave a Response

Comigo é assim: olhos, ouvidos e mente sempre aberta. Pra mim, a felicidade está nas pequenas coisas. Dinheiro é bom? É necessário. Supre fome, supre necessidades básicas e pequenos caprichos. Não supre o fato de você ser uma pessoa medíocre, por exemplo. Então não é tudo. Quero ter o suficiente para poder ser do jeito que eu sou, pra conseguir manter a minha independência e usufruir daquilo que construí. Quero sentir esse gostinho. O gostinho da vida adulta. As contas a pagar se acumulando, o imposto de renda caindo na malha fina, o seguro do carro que eu esqueci de pagar, a fatura do cartão acima do limite, o aluguel que aumentou além do previsto e estourou o meu orçamento do mês. Masoquista? Sou, mas de forma pontual, contida, discreta e graciosa.

Do meu pai herdei esse jeitinho irritante de não me importar com nada nem com ninguém. Em doses homeopáticas, eu diria até que é uma benção. O futuro da psicologia, talvez. Da minha mãe, herdei a simpatia, a beleza e o carisma contagiantes. Ah, e também a falsa modéstia. Dos dois juntos, enquanto casal, herdei a vontade de fazer as coisas darem certo, apesar de tudo. E a incapacidade de reivindicar os meus direitos. E o não saber dizer não. Coisas boas e ruins. Enfim.

Nunca sei bem o que eu quero. Por exemplo, já sou uma pessoa diferente da que eu era quando comecei a escrever essa frase. Já começo a odiar a frase anterior. A frase que eu mais admiro sempre é a atual, a que está sendo escrita. Esta. E esta. Na vida também. Não sou saudosista e odeio quem é. Por exemplo: hipsters, banda que faz cover dos Beatles e fica presa nos anos 60, gente que acha que “naquela época era melhor”, que tudo era uma delícia até chegar a próxima geração e estragar tudo. A música morreu. O cinema morreu. A literatura morreu. Sabe o que morreu também? O cérebro das pessoas saudosistas. A alma delas morreu. Descanse em paz. Aliás, queime no inferno, que é pra não voltar mais.

O presente é um presente. O passado varia. O meu, por exemplo, foi uma merda. O futuro? Pra mim já é, está sendo, já foi. A vida é muito curta pra se pensar no futuro. Suponhamos que eu tenha um piripaque antes de terminar esse texto. Pra onde vai o prêmio da Mega da virada que eu não ganhei? Quem vai ficar com a chave da mansão que eu ia comprar em Beverly Hills e com o iate que eu ia deixar ancorado na Marina da Glória? Ninguém, porque somos apenas um bando de animais que estão morrendo a cada dia. Uns aproveitam e se tornam pessoas legais e compreensivas, outros se jogam nas drogas, na prostituição e depois no evangelho, não necessariamente nessa mesma ordem. É a tal da liberdade. Coisa de americano.

E vou vivendo assim, aos poucos, tentando alinhar os chakras e fazendo o que Deus me colocou aqui pra fazer. Brilhar? Pode ser. Sucesso internacional? Talvez, nunca se sabe. Acho que não é pedir muito. Desde criança eu tenho essa sensação de que algo grande me espera. E não só no sentido sexual. Na vida mesmo. O meu chamado. O meu destino. Vinte e seis anos depois e nada de desistir da ideia. Vai que.

EPTC, vai tomar no cu!

20/06/2011 - 3 Respostas

(Antes de mais nada, gostaria de me desculpar antecipadamente pelo linguajar chulo que utilizarei ao longo desse post. Pessoas sensíveis a palavrões, ou que gostam de enganar a si próprios ao fazer a péssima escolha de não utilizar palavras de baixo calão em seu vocabulário diário, sintam-se à vontade para interromper a leitura, me deletar do Orkut ou denunciar abuso em algum lugar aqui no WordPress. E não esqueçam: o novo CD do padre Reginaldo Manzotti já está nas lojas).

Esse post está sendo escrito mentalmente há mais de mês, mas só agora eu me senti motivado a vir aqui e escrever sobre um assunto que me deixou muito irado, revoltado e incapacitado. Como eu não sou o tipo de pessoa que luta pelos seus direitos (obrigado, papai e mamãe), venho por meio deste externar toda a minha raiva, ultraje e ódio mortal por uma das instituições mais queridas da soçaite gaúcha: a EPTC. O fato é o seguinte: ao longo desses dois meses de ausência, eu consegui ser multado não uma, nem duas, mas TRÊS vezes por esses rascunhos descartados de pessoas humanas comumente chamados de azuizinhos.

Pra quem não sabe, eu trabalho em uma ruazinha pacata, em forma de L, que começa em uma rua e termina em outra, e cujo trajeto ninguém é obrigado a percorrer. A meia dúzia de pessoas que ali moram ou são velhos caquéticos que cultivam secretamente o hobby de chamar a EPTC quando eu estaciono na frente da casa deles, ou pessoas mal-intencionadas que vivem de  roubar ilegalmente a prefeitura dos outros no Foursquare.

Repetindo, então, caso alguém ainda não tenha entendido: ninguém é obrigado a passar por essa rua, jamais. E mesmo assim, a EPTC resolveu que 85% da rua deve ser constituída por locais onde é proibido estacionar. Não estou falando de saídas/entradas de garagem, ou de calçadas amarelas do mal. Estou falando de locais onde não há sinalização alguma, e mesmo assim a EPTC, a chamado de idosos em fase de decomposição, insiste em multar cidadãos de bem, como por exemplo EU.

Da primeira vez, fui instruído pela funcionária da farmácia a estacionar em um local onde a entrada e saída de veículos do estacionamento do local não é bloqueada, mas tem calçadinha amarela e o meu caralho de óculos de sol. Caí na roubada e levei uma multa, que não me foi notificada pela EPTC e quase foi omitida pelo meu zeloso pai. Óbvio que hoje em dia ela deve estar desempregada, chorando dia e noite em frente ao seu casebre destruído na vila Chocolatão, mas é o que o Padre Marcelo Rossi diz: a vida quer que você chore, mas Deus quer que você sorria!

Na segunda vez, eu estacionei com muito custo em um local lindo, perfeito, talhado à perfeição por anjos hermafroditas enrolados em colares de louros. A vaga não atrapalhava a entrada e saída de veículos, mas no final da tarde fui informado pela faxineira do prédio em frente que a EPTC estava nessas de fazer rondas surpresa pela rua, possivelmente a chamado daqueles velhos impotentes e fedidos à carniça ali dos parágrafos anteriores. Ela me sinalizou para abrir o vidro da janela, e me mostrou que havia um papelzinho carinhoso sobre o meu pára-brisa. Era uma notificação de multa deixada por uma pessoa frustrada sexualmente e em vias de perder o seu emprego e agonizar em um estado de dor extrema pelo resto da sua vida. Um azulzinho, se preferirem.

Já a terceira vez foi a pior de todas. Abalado pelas duas multas anteriores, eu passei a sentir taquicardia e sudorese intensa cada vez que chegava para trabalhar e precisava estacionar o carro. Quando vislumbrei um lugar vago no estacionamento transversal no meio da rua, refleti para mim mesmo: “se Deus está por nós, quem poderá estar contra nós?” Fui lá, garanti a vaga e, ao sair do carro, fui surpreendido pela advertência daquele senhor ao qual me referi anteriormente, que agora infelizmente jaz a sete palmos depois que o toldo do prédio caiu sobre a cabeça dele de forma violenta. Ele me informou que eu havia estacionado em um local onde era proibido estacionar, e que eu certamente levaria uma multa se deixasse o carro ali.

Distímico que sou, fui até o trabalho, larguei as minhas coisas e refleti sobre as sábias palavras do falecido senhor ali da frente. Logo saí correndo e fui tirar o carro daquela vaga e, para minha sorte, encontrei uma outra vaga logo à frente, sem placa de proibido estacionar, sem calçada amarela, sem velho defunto, enfim, muito amor. Deixei o carro ali e ejaculei em direção ao trabalho, e vivi aquela tarde como se fosse a última. Ao chegar o final do dia, rumei para o carro na esperança de ir para a casa descansar e ser lindo de pantufa.

Mas não. Contrariando todas as minhas expectativas, fui fulminado por mais um bilhetinho branco que me informava que eu havia estacionado em local proibido, e que eu não me encontrava no veículo (se é pra ficar dentro do veículo eu fico lá na minha garagem, trabalhando do meu iPad) e que eu era uma pessoa péssima e ranheta (ok, eu acrescentei essas duas últimas).

Naquele momento eu morri por dentro. Depois desse dia eu nunca mais consegui ser feliz, e passo os meus dias e noites amaldiçoando o(s) filho(s) da puta que me tiraram pra Cristo nesses últimos meses. O pior de tudo: diariamente eu olho para os carros estacionados nessas mesmas vagas onde eu fui humilhado como ser humano e vejo que NENHUM DELES FOI MULTADO! NUNCA SÃO! Eu quero mais é que tudo se exploda, que a EPTC pegue fogo e que todo mundo seja carbonizado lá dentro, mas não sem antes eu passar lá e mijar na cara dos filhos da puta que me multaram e cagar na boca da pessoa que sai pelas ruas de Porto Alegre fazendo a sinalização de trânsito à qual eu sou obrigado a me sujeitar diariamente. Morram.

Licença-paternidade

19/06/2011 - Leave a Response

Caríssimos leitores,

A vida não está sendo fácil para mim nesses últimos meses. Pra começar (e pra terminar), eu tive um filho. Na verdade um gato, mendigo, que Deus colocou no meu caminho para alegrar a minha vida e a vida de todos que me cercam (menos a minha irmã, que é uma pessoa mais chegada a pessoas, ou pelo menos pensa que é).

Além de ser o gato mais bonito da cidade e do mundo, o Juquinha (vulgo Xurico, Xurupico, Xurino, Xiruco ou Chouriço) também me mostrou que gatos são a melhor estratégia para pessoas sem habilidades sociais, e tem mudado a minha vida das mais variadas formas imagináveis.

Mas essa fofurice toda é só pra justificar o fato de eu ter ficado longe desse meu querido blog pelo tempo recorde de dois meses e dois dias. Um post de verdade vem a seguir, ok? Beijos.

Duas animações que você não pode deixar de perder

17/04/2011 - Leave a Response

Rango (Gore Verbinski, 2011)

Eu fiquei sabendo da existência de Rango bem pouco antes dele estrear. Nunca fui muito fã do Gore Verbinski e seus Piratas do Caribe, e considero o Johnny Depp um dos atores mais boçais da atualidade (eu juro que se ele fizer mais um filme babaca com o Tim Burton, interpretando o mesmo papel de sempre [ele próprio], eu vou me jogar pela janela ouvindo o CD da Ângela Bismarchi enquanto me masturbo com uma foto da Susana Vieira).

Achei o trailer bem fraquinho e o design dos personagens (uma das coisas que eu mais admiro em animações) meio cagado. Mas dei uma chance e fui assistir, porque eu tenho andado assim ultimamente. Eu já tinha ouvido falar que o filme não era lá muito infantil, e que os pais deveriam pensar algumas vezes antes de levar os seus filhos ao cinema para assistir a essa porcaria, digo, a esse filme. Mas o que eu não tinha ouvido falar é que Rango não foi feito nem para crianças e nem para adultos.

Tudo bem que a dublagem assassina muitas das piadas contextuais e das (raras) tiradas mais engraçadinhas dos personagens, mas a minha intuição me diz que a versão original também fez muita gente morrer um pouco por dentro. Não sei por onde começar a explicar por que diabos eu não consegui simpatizar com a trama e nem com os seus personagens que, além do seu aspecto cagado, não são bem construídos e me deixaram envergonhado por seus realizadores.

Só sei que, ao final da sessão, o filme deixa um gosto amargo, como se tu tivesse assistido 107 minutos seguidos de Zorra Total reencenado por animais panssexuais exóticos com senso de humor duvidoso, que se esforçam bravamente para, no fim das contas, passar apenas uma mensagem: economize água (?).

Rio (Carlos Saldanha, 2011)

Desde que começaram a falar nesse filme, eu encarnei a Regina Duarte e passei a morrer de medo pelo que estava por vir. Eu simpatizo com o Carlos Saldanha. Acho super importante ele ser um diretor brasileiro fazendo animação nos states e tal. Eu só não curto muito os filmes que ele fez até agora. Inclusive este Rio.

Mas vamos começar pelos pontos positivos, dos quais eu quase nunca falo (ver Distimia): a animação é tecnicamente e artisticamente incrível.

Ok, agora podemos falar sobre os pontos negativos. A história é bem fraquinha, cheia de clichês e nonsense do tipo “vamos desfilar na Sapucaí com um caminhão cheio de passarinhos contrabandeados antes de nos dirigirmos ao aeroporto e fugirmos com a muamba”, entre outros momentos WTF.

Era de se esperar que um diretor brasileiro, fazendo uma animação sobre o Brasil, tivesse um pouco mais de bom senso e tato para abordar a cultura do nosso país. Minha retina e os meus ouvidos não merecem ser expostos a cenas como a do Rodrigo Santoro encontrando a sua dentista biscate (que fala inglês, óbvio) no calçadão de Copacabana (gritando “Don’t forget to floss” enquanto oferece o seu corpo para os homens. Bem sério).

E acho que era desnecessário repetir o mesmo modelo de personagem pro segurança homossexual do abrigo para animais, pro parceiro babacão do vilão americanizado e pro porteiro da Sapucaí. Tem coisa melhor a se fazer do que reciclar o velho Shrek versão humano da Dreamworks.

Eu sei que puxo muito o saco da Pixar, mas é que eu me indigno com produtoras que debocham da inteligência de sua audiência. Eu não odiei totalmente Rio, mas não consegui sentir qualquer coisa de verdadeiro ou significativo nele. Vai ver foi a voz do Jesse Eisenberg, ou a onipresença de Will.i.am. Só sei que me senti envergonhado como brasileiro e como audiência. Boa sorte na próxima, Carlos Saldanha.

3 precipitações que me irritam

05/04/2011 - 3 Respostas

1) Pessoas que enfiam suas compras na esteira do super

Fazer compras no supermercado é irritante, mas é uma coisa que eu amo fazer. Confesso que eu amava mais quando eu era pequeno, e tinha altas ereções enquanto percorria aqueles corredores enormes, cheios de prateleiras com fileiras infinitas de embalagens coloridas que foram projetadas por pessoas especializadas em acabar com a felicidade dos pais desse meu Brasil afora.

Quer dizer, eu ainda sinto um barato quando vou no supermercado e vejo que a Oral-B lançou uma escova cor de laranja energizante multifuncional que limpa a língua, massageia as bochechas, estimula a sua criatividade com leves vibrações na cabeça e ainda por cima escova os dentes; ou quando eu descubro que a Johnson & Johnson lançou um Band-Aid à prova de balas com revestimento em neoprene e ilustrações do Romero Britto com formato de ornitorrinco.

Mas a diversão acaba por aí. Quando eu chego no caixa, esbanjando alegria por ter sido enrabado pelo poder supremo da publicidade, quase sempre me deparo com uma situação que me deixa muito indignado: assim que eu termino de colocar as minhas compras sobre a esteira, sempre tem uma véia que imediatamente começa e descarregar o seu carrinho sobre os meus produtos.

Após passar por um momento onde eu sinto vontade de me ajoelhar e chorar num canto escuro de tanta raiva, eu tenho que pegar e separar “educadamente” as minhas bruschettis Sapore di Puglia (favor patrocinar o meu blog) da montanha de Activia sabor ameixa e do estoque de fralda geriátrica que a véia resolveu que tinha que grudar nas minhas compras. Dá vontade de tirar a roupa, sair correndo e gritar no microfone do supermercado “SAI DAQUI SUA VÉIA DOS INFERNO DESGRUDA ESSA NABA DE MIM MORRE DIABO“. Custa esperar abrir um espaço de segurança de 30cm entre as minhas compras e as suas? Tá com tanta pressa assim de chegar em casa e assistir ao capítulo final de Araguaia? Então vai procurar outro caixa, porque aqui você vai ter o tratamento que merece. Sim, isso me irrita muito.

2) Pessoas que tiram o cinto de segurança e levantam antes de o avião parar

Eu odeio andar de avião. Eu não acredito em estatísticas que dizem que é mais seguro do que andar de carro, e eu prefiro me jogar pelado de um trem-bala em movimento do que ser obrigado a viajar em uma aeronave que ninguém sabe direito como funciona e que é pilotada por uma pessoa cujo passado eu desconheço e cujo estado mental não pode ser dos mais legais só por ela ter escolhido dirigir uma geringonça dessas como profissão. E eu já viajei muito de avião nessa vida, então posso falar com certa propriedade.

Mas eu não vim aqui pra falar sobre a minha fobia aérea, e sim sobre uma outra precipitação que me irrita muito, e que está muito relacionada a aviões: eu não consigo suportar psiquicamente que as pessoas se sintam compelidas a afrouxar o cinto de segurança e levantar pra pegar os seus pertences no compartimento superior antes que o avião pare por completo!

Eu fico secretamente torcendo para que o avião dê uma acelerada monstro e freie bruscamente pra que essas pessoas voem umas sobre as outras e fiquem ali se lamentando de dor enquanto eu levanto no momento apropriado e saio andando por cima desse amontoado de gente péssima que não sabe ouvir instruções e só pensa em tirar vantagem dos outros e sair sempre na frente. Seria o triunfo da minha vida.

3) Pessoas que cantam antes

Sabe quando tá tocando uma música super conhecida e sempre tem uma pessoa que começa a cantar antes pra mostrar que ela foi genial e reconheceu os acordes de “Parabéns a você” ou que ela sofre de graves problemas de ritmo e melodia (ex: minha mãe)? Surpresa: isso também me irrita muito. Como lidar? Eu não sei se é pra parabenizar a pessoa, ou se é pra lamentar a sua falta de timing para a música, então, na dúvida, eu só fico visivelmente irado e tento dar sinais disso enquanto tento trabalhar isso com a minha psicóloga.


[continua]

Dress code: o retorno (ou Que ano é hoje?)

21/03/2011 - Leave a Response

Quem leu o meu post falando sobre dress code há algumas semanas sabe o que eu penso sobre o assunto. Ingenuamente, eu achei que tudo estava sob controle após ter escrito tudo aquilo e tirado toda aquela ira do meu sistema. Só que conversando com a minha família recentemente, a chama da rebeldia se acendeu novamente lá no fundo da minha mente e eu tive que voltar a escrever sobre o tema (só mais um pouquinho).

O que me deixou mais apavorado (e profundamente entristecido) foi o fato de todos eles compartilharem do mesmo pensamento ultrajante daqueles restaurateurs e imbecis que deram o ar da graça na reportagem da Folha de São Paulo. E isso acabou me levando a escrever isso:

Fico perplexo com a naturalidade com que as pessoas reagem ao fato de uma mulher ser aceita socialmente trajando roupas que configuram prostituição, mas acham agressivo e consideram tentativa de chamar a atenção o fato de um homem vestir bermuda, regata e boné. O pudor do corpo masculino já deu o que tinha que dar, e eu não consigo não me rebelar quando vejo que dentro da minha própria casa as pessoas pensam como a Célia Ribeiro ou qualquer outro baluarte da etiqueta e dos bons costumes em nossa sociedade.

O que é que a perna do homem tem que a da mulher não tem? O que é que o peito do homem tem que o da mulher não tem? O que é que o pé do homem tem que o da mulher não tem? Um espertinho/fresco/nada jurídico responderia: pêlos. E eu não saberia nem por onde começar a responder. Eu gostaria de saber, sim, com que parte do corpo essas pessoas comem? Na maioria dos restaurantes, as pernas do ser humano masculino ficam escondidas debaixo da mesa, e não vejo como isso pode influenciar na higiene ou no desconforto dos outros clientes. Hoje em dia, muitas vezes, as mulheres têm mais pêlos no sovaco do que os homens. Sem contar a quantidade de cabelos que a espécie feminina consegue perder em um só dia. Como proceder?

Outro tópico da discussão foi o seguinte: se eu estou vestido de forma exemplar e estou pagando caro para frequentar determinado restaurante, todos os outros frequentadores têm que estar tão ou mais bem vestidos do que eu, e eu não posso suportar psiquicamente vislumbrar um homem (sempre o homem) vestindo regata ou bermuda estragando a paisagem e desvalorizando o ambiente chiquérrimo e exclusivo.

Não consigo nem começar a tentar entender esse raciocínio arcaico e egoísta. Se a pessoa quis se emperiquitar, o problema é todo dela. Se ela não sabe brincar, não desce pro play. Esquecem-se de que estamos falando de animais se alimentando, e idealizam uma dimensão paralela onde executivos que estão em almoços de negócios devem ser poupados de coexistirem em um ambiente onde um reles mortal, de carne e osso como eles, está trajando bermuda e chinelo.

Gosto de me vestir, admiro a moda mais do que admite a minha heterossexualidade, coleciono camisetas e tênis que eu acho bacanas, mas o problema é que eu faço isso por mim mesmo, e por mais ninguém. Ou melhor, todo mundo se veste para ser visto. Segundo a minha família (e segundo eu mesmo), eu gosto de aparecer. Mas eu não me preocupo com o que me visto, ou se estou adequado para padrões medíocres e ultrapassados. Eu me visto pensando que a vida é muito curta para se preocupar com miudices.

Se a pessoa se casa, proíbe os outros de se vestirem melhor do que ela, porque aquela é a sua noite, e ela tem que brilhar, custe o que custar. Tive que ouvir isso da minha irmã, enquanto morria um pouco por dentro. Não é só ela que pensa assim. O ser humano pensa assim. É egoísta, orgulhoso. A pessoa não se casa para compartilhar com família e amigos da sua alegria, e sim para aparecer rica e fina, humilhando todas as outras convidadas que foram proibidas de vestir tal vestido longo ou calçar tal sapato de tal cor. O mundo é assim. E as pessoas o aceitam assim.

Se a pessoa sai para jantar, ela não está apenas saindo para jantar. Ela está saindo para jantar em um lugar onde ela espera que as pessoas estejam se vestindo à sua altura, que elas atendam aos seus vertiginosos padrões de excelência (NOT!). Menos do que isso não é aceitável. Meu pai deu o exemplo de um restaurante no Rio de Janeiro que não permite a entrada de pessoas vestidas com calça jeans. Novamente, engoli a seco. Ele acha normal. Se bobear, todos na minha família acham normal. E fora dela também. A explicação, mais uma vez, foge ao meu entendimento. Se a pessoa é tão insignificante como ser humano a ponto de se sentir desconfortável ao ver alguém fazendo uma refeição perto de si trajando calça jeans, é de se pensar se ela não deveria optar por buscar ajuda ou se suicidar para poupar o mundo da sua pífia existência.

Não sei se me fiz claro, mas esse assunto de convenções sociais e regras de como se comportar e vestir há muito me indigna. Eu não sou um pobre diabo sem condições financeiras que vive de invejar o status social de outrem e desejar aquela vida para si. Graças a Deus, não nasci em berço esplêndido, mas gozo de uma situação muito confortável e fui muito bem criado para o mundo (há controvérsias).

Já frequentei restaurantes muito bons no mundo todo e, por sorte, nunca tive a minha entrada proibida em nenhum estabelecimento. Mas fico triste quando as pessoas, inclusive as da minha própria família, aceitam tudo isso como se fosse normal. Mais ainda, quando tentam me fazer entender que eu estou errado: se eu quero usar bermuda e chinelo, que eu simplesmente não frequente os restaurantes que o proíbem. Simples assim. Amo a minha família.

 

No dia em que eu virei um NET

15/03/2011 - Leave a Response

Eu fiquei esperando 3h40 para ser atendido pela Central de Relacionamento, desenvolvi três tipos diferentes de fungo ao redor do corpo e terminei com 18 protocolos que eu não sei bem pra quê servem.

Eu agendei visita do técnico e fiquei a tarde inteira sentado embaixo do interfone com cãibra no cóccix esperando, sem que ele aparecesse ou ao menos me telefonasse no dia seguinte.

Eu perdi o direito de gravar programas no meu HD interno porque o general Tutchenko decidiu que eles tem o direito de controlar remotamente um recurso que se encontra dentro do meu próprio aparelho.

Eu fiquei sem os canais de notícias sem aviso prévio e decidi que era melhor não desembolsar mais dinheiros para sofrer morte cerebral assistindo a Band News e a Record News.

Eu fui exposto diariamente à mensagem “o Smart Card está inserido de maneira incorreta“, sendo que ele se encontra na mesma posição desde 1986.

Eu fiquei 24h sem sinal porque uma caturrita espirrou perto dos cabos da NET e provocou um efeito borboleta sem precedentes no mercado brasileiro de televisão a cabo.

Eu fui atendido pela famigerada Soraya e fui sodomizado via telefone, tendo que buscar atendimento psiquiátrico para Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Eu tive que aprender a conviver com o fato de que aviões passando a quilômetros de altura possam interferir na transmissão via cabo, sempre na parte mais importante da novela das nove.

Eu fui coagido a assinar o NET Fone, que até hoje eu não sei o número, nem o propósito, nem como faz pra ligar.

Eu vi coisas horríveis. Eu passei por situações de extrema infelicidade. Eu ouvi desaforos impronunciáveis.

(entra música) No dia (no diaaaaaa-a) em que eu virei um NET (repetir 1x).

3 coisas que estão estragando o BBB

13/03/2011 - Leave a Response

Antes de começar o post, quero deixar bem claro que eu gosto de assistir Big Brother, ao contrário de várias pessoas semi-analfabetas por aí que mal estão habilitadas para operar socialmente mas amam odiar o programa e considerá-lo a origem de toda a falta de cultura e erudição do mundo. Eu também gosto de assistir Casos de Família, Superpop e Fala Que Eu Te Escuto, mas isso não vem ao caso agora.

Para os que não repensaram a amizade ou que não desistiram da leitura até aqui, pretendo enumerar nesse post os fatores que, na minha opinião, estão acabando com o BBB. São eles:

1) Provas com merchandising:

Além de queimarem o filme das marcas que estão pagando quantias absurdas para aparecer no programa, as provas patrocinadas (as dessa edição em especial) são pessimamente planejadas e quebram o ritmo do jogo. A prova do líder, que costumava ser excitante, competitiva, por vezes sanguinolenta, mas sempre divertida para o telespectador, hoje em dia se resume a gincanas aleatórias onde os participantes têm que jogar um dado, andar meia dúzia de casas e citar o nome de um xampú bagaceiro que nem a vizinha da faxineira da minha empregada usa, ou sufocar até a morte dentro de um saco plástico para simular o preparo de um frango com tempero rico em glutamato monossódico e gordura vegetal hidrogenada (morte lenta) que nem uma pessoa morbidamente obesa sem papilas gustativas teria coragem de colocar na própria comida, ou se dependurar em garrafas escorregadias gigantes de um determinado refrigerante (que é o pior em sua categoria) e rogar a Deus que não as deixe cair e se transformar na Luciana de Viver a Vida. Tudo tem o seu lugar e hora, ok, pessoal da produção?

2) Boninho:

Ele é um idiota, por vários motivos que eu não vou citar aqui. A pessoa que se diverte jogando ovos podres em prostitutas (que ano é hoje?) dispensa comentários. E ele está contribuindo em muito para o declínio da qualidade e da audiência do programa. A começar pela seleção dos participantes. Antigamente, as pessoas que entravam na casa, em sua maioria, queriam muito estar ali dentro, seja porque tinham gravado um vídeo mostrando todo o seu potencial como seres humanos, ou porque queriam ganhar um milhão de reais (quem curte?).

O que acontece hoje é que os olheiros comandados por Boninho saem para caçar na noite e acabam chamando qualquer piriguete jornalista barra modelo barra promoter barra chave de cadeia barra blogueira barra auxiliar de limpeza barra dançarina, e qualquer bombadinho estudante de Administração barra modelo barra michê barra vocalista de banda juvenil barra rato de academia barra homossexual passivo pra participar do programa. Resultado: o BBB 11 tem o pior grupo de participantes já visto em todas as edições. E o que dizer dos paredões triplos, que tiram todo o tesão e o calor da disputa um-a-um que é o mais legal do programa? E que história é essa de ficar tirando as pessoas, depois colocando de volta? Que porra é essa, Boninho? E como que vocês eliminam o transsexual Ariadna na primeira semana? Sem visão. Sem comentários.

3) Discurso do Bial:

É terça-feira, tá tudo indo super bem, daí tu lembra que é dia de eliminação e põe na Globo pra ver quem vai ser o idiota a menos da vez. Mas nada pode te preparar para os poucos minutos (que parecem intermináveis) da fala do Pedro Bial antes de anunciar quem foi eliminado pelo público. Tudo bem que a tarefa de fazer com que a saída de uma pessoa desprovida de intelecto e superprovida do gene exibicionista não é simples, mas quando tu ouve o nome do Gay Talese junto ao nome da Talula, tu repensa toda a existência do homem sobre a Terra e começa a achar que o fim do mundo em 2012 tá até demorando pra chegar. Me dá vontade de colocar Filtro Solar no repeat pro resto da vida e morrer de desgosto, ali mesmo no sofá, toda vez que o Bial começa a proferir aquela quantidade significativa de metáforas, anáforas e outras defecações verbais. Mas daí eu penso “Eu escolhi assistir isso. Eu tenho mais de 200 canais nessa naba e conscientemente elegi o Big Brother Brasil como a alternativa mais interessante de programação televisiva na terça-feira à noite. Eu mereço isso”.

Dress code

04/03/2011 - Uma resposta

Lendo uma notícia na Folha dia desses, eu senti aquele tipo de revolta não-produtiva que sempre me acompanhou ao longo da vida. A matéria falava sobre as normas protocolares de vestimenta em certos restaurantes de São Paulo, onde, mesmo durante as piores ondas de calor já registradas na história da vida humana, os homens são proibidos de frequentar vestindo bermuda e chinelo. Boné, então, nem pensar.

Os sacos escrotais que contribuíam com depoimentos afirmavam que é ululantemente óbvio que homens não podem deixar suas pernas cabeludas à mostra (tudo por uma questão de higiene), enquanto mulheres podem exibir até o racho no meio das pernas e esfregar a genitália nos alimentos que ok, no pasa nada.

O sangue logo me subiu à cabeça. Pra mim é indiscutível o fato de que, se tu tá pagando pelo bolo fecal que eles chamam de comida, tu tem o direito de se vestir do jeito que quiser (pelado não é uma opção por ser entendido como atentado ao pudor, embora eu ache isso ridículo também). Se eu quiser frequentar o A Bela Sintra ou o Fasano vestindo as Havaianas mais bagaceiras que eu conseguir desenterrar do meu armário, uma bermudinha sexy acima do joelho e um boné que eu ganhei de brinde no posto de gasolina, o problema é todo meu.

Se uma acompanhante de luxo adentrar o Antiquarius com os pelinhos da vagina se jogando pra fora da sua minissaia Marisa, e com os mamilos escapando do seu bustiê comprado na 25 de março, certamente ela será bem recebida, assim como o importante empresário que contratou os seus serviços. Agora, se eu chego na furreca do Bistrô Charlô calçando meu chinelinho Osklen, com uma bermudinha básica Christian Dior e um bonezinho simples da Diesel, a minha entrada simplesmente será recusada. Eu disse: os filhos da puta metidos a guardiões do bom gosto e do bom senso mundial arbitrariamente proibiriam a minha presença no seu restaurante de quinta categoria.

Que mundo é esse em que vivemos? Um mundo onde tu paga valores exorbitantes para tentar extrair sustância e nutrientes de mini-porções de comida feita com ingredientes que nem deveriam ser tolerados socialmente e ainda por cima tem que aceitar o fato de – em pleno século XXI, com aquecimento global e apocalipse em 2012 -, tu ser obrigado a te vestir feito um imbecil deslocado da sociedade para poder comer esse monte de merda que tu estaria em condições de pagar, em primeiro lugar.

Célia Ribeiro (amo ela) que me perdoe, mas esse tipo de atitude por parte dos restaurateurs não é sinal de elegância e etiqueta, e sim um sinal de que eles são todos uns delinquentes mentais com psiquismo primitivo que não deveriam estar operando estabelecimentos comerciais nessa era em que vivemos. O consumidor paga (e bem caro) pelo que consome, e tem todo o direito de pelo menos se vestir da forma como sentir vontade enquanto o faz. Tentem me impedir.

*Para ler a notícia da Folha, clique aqui.

Kindle ou iPad?

22/02/2011 - Leave a Response

Muito se tem discutido hoje em dia sobre tablets (ou tabletes, segundo Pedro Bial), e-readers e o meu pênis de óculos. O que o Kindle fez e vem fazendo pelo mercado de livros eletrônicos desde 2007, o iPad fez e vem fazendo pelo mercado de notebooks, netbooks e aquilo que doravante chamaremos de tabletes, desde o início de 2010.

O que eu pretendo fazer aqui (pra variar) é me rebelar e explicar de uma vez por todas por quê um iPad é um iPad e um Kindle é um Kindle (para maior efeito dramático, utilizarei o e-reader da Amazon como representativo de todos os outros e-readers do mercado, embora ele seja o melhor e eu mantenha uma relação conjugal com ele).

Primeiro, o iPad é um computador. É lindo, é funcional, é inovador, mas é um computador. Tu usa ele para acessar a internet, ler e-mails, baixar uma caralhada de aplicativos que tu nunca vai usar, assistir filmes (quem curte?) e eventualmente ouvir música. Já o Kindle é um leitor de livros eletrônicos. É lindo, é funcional, é inovador, é o xodó do papai, mas é um leitor de livros eletrônicos. Tu usa ele para… ler livros eletrônicos, embora alguns nerds mais hardcore possam usá-lo para acessar a internet (navegador experimental + e-Ink = jesus jogue álcool gel sobre os meus olhos), jogar campo minado e eventualmente ouvir música.

Segundo, o iPad possui uma tela de LED, ideal para a visualização de vídeos, fotos, e aplicativos ricos em atrativos gráficos. Agora, tente ler um livro nele por mais de cinco minutos sem começar a rezar para que Deus tome a tua vida e te arraste para o inferno pela eternidade. Por mais que a Apple tente enfiar goela abaixo o seu iBooks, a verdade é que pessoas que gostam (muito) de ler não utilizarão um iPad para fazê-lo. O único público-alvo deles são criancinhas em fase de alfabetização, que precisam de estímulos coloridos em movimento para reter o aprendizado. É o Ursinho Pooh bombando nos tabletes.

Já o Kindle possui uma tela de e-Ink (tinta eletrônica), que possui a aparência de uma folha de papel. Tu pode ficar horas e horas olhando para ele, sem aquela sensação de que alguém está mirando uma lanterna bem no fundo do teu olho e lentamente causando a tua morte. Óbvio que, sem backlight, não há reza braba que faça tu conseguir ler na escuridão total, problema este que pode ser contornado através da obtenção de uma luminária de cabeceira, ou uma daquelas lanterninhas chinfrins que tu compra no camelódromo e prende no próprio livro para ler.

Terceiro, o iPad é pesado. Se tu não apoiar ele em algum lugar enquanto navega, corre o grande risco de desenvolver uma tendinite ou síndrome do túnel carpal. O Kindle, por outro lado, pode ser utilizado com uma mão só, e realmente desaparece nas tuas mãos.

Quarto, a navegação no iPad é totalmente intuitiva e natural nesse nosso mundo onde até a Cristina Ranzolin é controlada por tela multitouch. Já no Kindle, a mecânica é a do velho e ultrapassado botão de apertar (em pleno século XXI? WTF?). É impagável a expressão no rosto das pessoas quando elas pegam o Kindle na mão, metem os dedos gordurosos na tela e nada acontece. E aí tu tem que explicar que o Kindle não possui uma tela multitoque, e que os botões laterais devem ser pressionados para que as páginas sejam viradas. E a pessoa te olha com aquela cara de quem tá pensando: “tadinho, como ele consegue lidar com isso?”. Apesar disso, funciona muito bem.

Quinto, eu não sei se me fiz entender com esse post, mas a intenção era a de desmistificar um pouco essa visão imbecilizante de que iPad e Kindle são concorrentes diretos. E também de mostrar que eu tenho um iPad e um Kindle (brinks).

Resumindo: se você gosta (muito) de ler e acha que cada minuto sem leitura é um minuto perdido de vida, compre um Kindle. Se você quer parecer cool e moderno, e acha que as fezes do Steve Jobs têm gosto de framboesas silvestres com aroma de limão siciliano, compre um iPad. Agora, se você adora ler livros, mas de vez em quando curte dar uma cagada jogando Angry Birds e aparecer em público com as últimas novidades tecnológicas, faça como eu: economize a grana que iria torrar em festinha e putaria e compre os dois.

 

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