Dress code

Lendo uma notícia na Folha dia desses, eu senti aquele tipo de revolta não-produtiva que sempre me acompanhou ao longo da vida. A matéria falava sobre as normas protocolares de vestimenta em certos restaurantes de São Paulo, onde, mesmo durante as piores ondas de calor já registradas na história da vida humana, os homens são proibidos de frequentar vestindo bermuda e chinelo. Boné, então, nem pensar.

Os sacos escrotais que contribuíam com depoimentos afirmavam que é ululantemente óbvio que homens não podem deixar suas pernas cabeludas à mostra (tudo por uma questão de higiene), enquanto mulheres podem exibir até o racho no meio das pernas e esfregar a genitália nos alimentos que ok, no pasa nada.

O sangue logo me subiu à cabeça. Pra mim é indiscutível o fato de que, se tu tá pagando pelo bolo fecal que eles chamam de comida, tu tem o direito de se vestir do jeito que quiser (pelado não é uma opção por ser entendido como atentado ao pudor, embora eu ache isso ridículo também). Se eu quiser frequentar o A Bela Sintra ou o Fasano vestindo as Havaianas mais bagaceiras que eu conseguir desenterrar do meu armário, uma bermudinha sexy acima do joelho e um boné que eu ganhei de brinde no posto de gasolina, o problema é todo meu.

Se uma acompanhante de luxo adentrar o Antiquarius com os pelinhos da vagina se jogando pra fora da sua minissaia Marisa, e com os mamilos escapando do seu bustiê comprado na 25 de março, certamente ela será bem recebida, assim como o importante empresário que contratou os seus serviços. Agora, se eu chego na furreca do Bistrô Charlô calçando meu chinelinho Osklen, com uma bermudinha básica Christian Dior e um bonezinho simples da Diesel, a minha entrada simplesmente será recusada. Eu disse: os filhos da puta metidos a guardiões do bom gosto e do bom senso mundial arbitrariamente proibiriam a minha presença no seu restaurante de quinta categoria.

Que mundo é esse em que vivemos? Um mundo onde tu paga valores exorbitantes para tentar extrair sustância e nutrientes de mini-porções de comida feita com ingredientes que nem deveriam ser tolerados socialmente e ainda por cima tem que aceitar o fato de – em pleno século XXI, com aquecimento global e apocalipse em 2012 -, tu ser obrigado a te vestir feito um imbecil deslocado da sociedade para poder comer esse monte de merda que tu estaria em condições de pagar, em primeiro lugar.

Célia Ribeiro (amo ela) que me perdoe, mas esse tipo de atitude por parte dos restaurateurs não é sinal de elegância e etiqueta, e sim um sinal de que eles são todos uns delinquentes mentais com psiquismo primitivo que não deveriam estar operando estabelecimentos comerciais nessa era em que vivemos. O consumidor paga (e bem caro) pelo que consome, e tem todo o direito de pelo menos se vestir da forma como sentir vontade enquanto o faz. Tentem me impedir.

*Para ler a notícia da Folha, clique aqui.

Uma resposta

  1. [...] leu o meu post falando sobre dress code há algumas semanas sabe o que eu penso sobre o assunto. Ingenuamente, eu achei que tudo estava sob [...]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.